Design para CSSers - Tipografia
A popularizaçăo crescente do uso de css e (X)HTML em sites năo é
mais uma tendęncia: é fato consumado. Praticamente qualquer empresa que
esteja no século XXI usa essas tecnologias - e até mesmo algumas firmas
arcaicas estăo, pelo menos no que diz respeito ŕ web, mais modulares.
Esse movimento é, do ponto de vista da comunicaçăo, muito maior que
uma simples tecnologia (ou mesmo um conjunto delas), já que significa
uma mudança de processo, de enfoque. Ao contrário do Flash, que em
breve irá para a cadeira arqueológica das tecnologias perdidas - junto
com HTML e COBOL - a dissociaçăo entre conteúdo e forma chegou para
ficar. Se é certo que provavelmente năo se falará em JavaScript ou até
mesmo em XML no futuro, a idéia de uma folha de estilo para controlar a
apresentaçăo de todos os dados, sensível ŕs necessidades especiais e
acessibilidade e maleável em sua apresentaçăo é mais do que genial: ela
faz sentido. E o futuro acontece quando tiramos do presente as coisas
que năo fazem sentido.
Mas se o uso de folhas de estilo é um bem inegável, ele năo é novo.
Qualquer designer com um conhecimento razoável da profissăo sabe o que
é um projeto gráfico e os elementos envolvidos nele. O uso de CSS
transmite este domínio (melhor: esse cuidado e preocupaçăo) para todos
os que fazem sites, o que sempre é uma boa.

Ao contrário de muito “purista” de design, eu acho essa
democratizaçăo do projeto gráfico muito bem-vinda. Até porque o cara
vai fazer a página de qualquer jeito, e o quanto mais ele souber de
design, tanto melhor.
Com tanta gente boa de CSS por aí que năo teve aula nem de Gestalt nem de Seçăo Áurea
na escola; que acha que Tipografia e Tipologia săo sinônimos; que usa
uma “fonte com serifa” para compor um texto “justificado”; e que
acredita que Itálico é sinônimo de Oblíquo, é preciso colocar alguns
pingos nos “i”s para que, municiados de um pouco de teoria, eles possam
ir ainda mais longe. Esta será a funçăo dos próximos posts.
Famílias tipográficas
Fontana di Trevi

Pra começar, “letra” năo é “fonte”. Quer dizer, é, mas năo
completamente. Letra é letra, também conhecida como “família
tipográfica” ou “tipo” (caindo em desuso, já que remete ao processo
arcaico de composiçăo).
Mas entăo daonde vem essa história de fonte? Bom, a longa história
remete ŕ composiçăo com tipos móveis, feitos de uma liga de chumbo e
antimônio, aquela coisa meio Gutemberg. Uma fonte, desde aquela época,
era uma matriz de impressăo. Era uma letra? Sim. Mas uma só. Assim, o
“j” minúsculo, em Times New Roman Bold, corpo 9, era uma fonte. A mesma
letra, em outro corpo ou estilo, era outra fonte. Seguindo esse
raciocínio, Times New Roman Bold, corpo 9, năo era
uma fonte, mas um conjunto de, no mínimo, umas 100 delas (contando
maiúsculas, minúsculas, números e caracteres analfabéticos, tipo %$#@*).
Todos os caracteres de uma letra, nos estilos (bold,
itálico e suas variaçőes) e tamanhos necessários para se escrever um
jornal comum (9, 10, 12, 18, 24, 36 e 72, por exemplo) podia chegar
facilmente a milhares de fontes, por isso era chamado de “família
tipográfica”. O termo typeface ou “face”, usado em inglęs, (em
referęncia ao fato que os membros de uma mesma família tendem a ser
parecidos) surgiu pra simplificar um pouco essa confusăo, mas năo muito.

Tipos móveis
Em outras palavras, chamar uma família tipográfica de “fonte” é uma
simplificaçăo, algo como chamar uma objetiva de “lente” ou dizer que
vocę “escovou dente” antes de dormir. Poder, pode. Tudo depende de seu
nível de pedantismo vs. informalidade.

fonte = lente = dente?
As “fontes” também tęm uma história mais curta, ligada ao mundo
digital. Ela remete ŕ Editoraçăo eletrônica. As primeiras impressoras a
laser e imagesetters
digitais vinham com algumas famílias de letras residentes. Quando se
mandava imprimir um texto em alguma letra que a máquina năo tinha, ela
importava o “arquivo-fonte” (font file), que tinha o desenho das formas
de todas as letras, em linguagem PostScript (vetorial, curvas Bézier), que daí poderia ser ampliado para o tamanho desejado.
Fonte quer dizer, como sempre, “origem” ou “molde”. “Letra” pode ser só uma interpretaçăo metonímica do termo.
“Ele salvou o texto justificando a fonte”
Antes da editoraçăo eletrônica, essa frase dizia claramente que o
indivíduo em questăo impediu seu texto de ser rejeitado ao mostrar que
ele vinha de uma origem pertinente. Hoje ela frase năo faz nenhum
sentido, afinal salvar texto e justificar fonte săo processos
diferentes. Costumo usar esse exemplo pra mostrar os tręs principais
erros de má traduçăo que afetam o design, algo na linha de “Vale do
Silicone” para se referir a Silicon Valley.
Ao contrário de “fonte”, que tem uma origem mais completa, “salvar”
e “justificar” tęm uma explicaçăo mais simples: săo só traduçőes
literais e muito mal-feitas. Save, em inglęs, é mais abrangente e menos
desesperado que “salvar”, e também quer dizer “poupar, proteger”. A
melhor traduçăo para nós deveria ser “gravar”, talvez. Sei lá.

Texto justificado. Ou năo.
“Justificado” é ainda mais ridículo. Se vocę pisou na bola com
alguém, deu a maior mancada e quer se desculpar, pode mandar flores e
escrever um cartăo. O texto em que vocę tenta se explicar que “năo é o
que parece, meu bem” é um texto justificado, já que proporciona uma
justificativa para algo. O texto alinhado firmemente ŕs duas margens
(direita e esquerda) é chamado corretamente de “blocado”. Justify,
em inglęs, quer dizer “ajustar, tornar justo”. Mas justo no sentido de
năo ter espaços antes das margens, năo de correto, honesto ou
justificado (no estrito senso).
Por último, sabe por que os textos antigos eram blocados? Ora, porque texto tem a mesma origem que tecido e textura.
Acreditava-se que o calígrafo costurava o fio do pensamento
(Dreamweaver, alguém?) na forma da palavra escrita. Como vocę năo
usaria um pano rasgado irregularmente nem para limpar o chăo da
cozinha, é natural que os primeiros textos buscassem ser o mais
regulares possível. É daí também que surgiram as expressőes “Linha de
pensamento”, “Fio da meada” e outras tantas.

Caligrafo
O nome vem do grego - quer dizer, năo muito. É uma espécie de Josicleusa, já que mistura o Type inglęs com o graphos
(escrita, escrever) do Latim. Literalmente, “escrita com tipos”. Por
mais que designers sejam apaixonados por ela, a ponto de provocar
reaçőes entusiasmadas (e exageradas) ela năo é uma cięncia. Mesmo que o
fosse, provavelmente teria que escolher outro nome, já que tipologia é
o estudo de um tipo de alguma coisa, confesso que năo sei muito bem o
que é.

Topologia, por sua vez, é o estudo de estados de continuidade
matemática, uma cięncia de compreensăo facílima, como pode-se
facilmente compreender por sua página na Wikipédia.
Por último, topografia é o que engenheiros fazem com aquele treco que
fica em cima de um tripé mas que năo é uma câmera. Tem a ver com mapas,
essas coisas. Confesso que morro de curiosidade em saber o que eles
tanto olham ali.

Futura Saddam
Claros os termos, năo há muita confusăo a se fazer. Ou quase. Em 1992, vocęs năo eram nascidos, a Associaçăo dos Diretores de Arte de Nova York publicou uma série de anúncios polęmicos, que abriam com a página acima e seguiam com algo como “ele
seria arrogante (trocadilho com Bold), ele seria irritante, ele estaria
em todos os lugares. NYADC contra Futura Condensed Extra Bold”. Tenha dó. E vocę achava que só os programadores Linux eram nerds, hem? Pois veja Helvetica
e mude completamente de opiniăo. Eu vi. No cinema. E só morri de rir
porque estava sozinho, senăo morreria é de vergonha. É por coisas como
essas que năo uso Arial de jeito nenhum.

Objeto de fetiche tiponerd.Năo dou, năo vendo, năo troco.
Tipografia, em resumo, năo é só para designers. É para todos. Ela é
muito importante porque, apesar de significarem palavras e traduzirem
idéias, letras săo desenhos. Desenhos universalmente reconhecidos que
săo aceitos subliminarmente e dăo a personalidade do ambiente gráfico
visitado. É exatamente porque năo reparamos nela que ela é tăo
poderosa. Um texto em Times New Roman é percebido como mais tradicional
que o mesmo texto composto em Verdana.

Glifo năo é grifo năo é Griffo
Um termo lembrado pelo Gustavo Lassala no post anterior foi Glifo.
Tem gente que acha que esse é o nome daquela “bolinha” que fica atrás
das listas de tópicos no PowerPoint. Năo estăo errados, mas é mais do
que isso. Glifo, como caractere, é qualquer forma que compőe um
alfabeto.
* <- Isto năo é um Glifo (obrigado, Magritte). Ou é. Na verdade, qualquer caractere é um Glifo.
Glifo é uma palavra bem parecida com Grifo, e esse é outro termo que
causa confusăo. Para alguns, grifo é o mesmo que sublinhado. Outros
acham que é sinônimo de itálico. Ambos estăo certos. Como também está
certo quem acha que Grifo é um animal mitológico que bota ovos de ouro.
Hippogriff

Se năo me engano, o personagem do meio é mestiço de Grifo com cavalo.
A origem toda vem de Francesco Griffo, um dos primeiros tipógrafos. Foi ele quem criou, junto com Aldo Manunzio,
os primeiros caracteres itálicos. A idéia que eles tiveram foi avançada
demais para a época: eles queriam fazer uma letra manuscrita que
imitasse a caligrafia Chancelaresca do Papa. Ela se chamaria Itálico e
deveria ser usada em documentos oficiais. O problema é que a letra de
Sua Santidade era pequena demais, e tanto a tinta, quanto o papel e o
metal usado para fazer tipos eram todos meio toscos, e por pouco os
dois tipógrafos năo viraram piada.
Com o tempo, a letra de Manunzio e Griffo acabou por se tornar um estilo. Seu uso eu comentei neste post antigo, resposta nş 10.
O termo “itálico” virou coisa de tipógrafo, já que os italianos o
chamavam, naturalmente, de Griffo. Ao traduzi-lo para outras línguas,
virou “grifo”. Séculos mais tarde, as máquinas de datilografia năo eram
capazes de reproduzi-lo, por isso passaram a sublinhar os textos que
demandassem ęnfase. Agora vocę pode animar festinhas com essas
curiosidades históricas.

O que é importante destacar é que itálico năo é sinônimo de
inclinado. Ou pelo menos năo deveria ser. A inclinaçăo deve-se ao fato
de, quando manuscrita, a letra é naturalmente inclinada. Algumas
famílias tipográficas, como a Times e a Georgia, tęm itálico
“verdadeiro”. Quando escrito neste estilo, a letra assume um formato
completamente diferente. Outras năo o tęm, e só inclinam a letra que
estaria neste estilo. Nesse caso, costumam ser chamada de oblique, para
năo dar confusăo.

Como vocę pode reparar nas letras “g”, “i” e “a”, os caracteres săo
completamente redesenhados em Georgia itálico e simplesmente inclinados
em Helvetica oblique. Antes que vocę pergunte: năo, năo existe “Georgia
Oblique” nem “Helvetica Italic”.
Conteúdo publicado originalmente no site Luli Radfahrer (http://www.luli.com.br/) e
reproduzido aqui com autorização do autor.
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